Havia um caminhante que cruzava as estradas do mundo com uma única pergunta gravada no peito: “A que vieste?”


Ele procurou a resposta nas grandes cidades, nos livros dos sábios e nos conselhos dos viajantes que cruzavam o seu caminho. Recebeu muitas respostas. Algumas eram belas, outras complexas, mas nenhuma delas tinha o poder de acender a escuridão que, às vezes, pesava em seu interior. O caminhante agradecia, mas continuava a marchar, sentindo que faltava o compasso principal daquela música.
Os anos viraram estações, e as estações viraram silêncio. Um dia, cansado de tanto procurar do lado de fora, o caminhante sentou-se à beira de um lago plácido, sob a sombra de uma árvore antiga. Ele fechou os olhos e decidiu, pela primeira vez, não perguntar nada a ninguém. Apenas ouvir.


No início, houve apenas o vento. Mas, com o passar dos meses, no recolhimento daquele silêncio, algo extraordinário começou a acontecer. Uma pulsação, vinda do lugar mais profundo de si mesmo, começou a ditar uma nova direção. Não era uma voz feita de palavras, mas uma presença feita de luz.
O caminhante percebeu que era como uma semente que passara a vida inteira sob a terra escura, acreditando que o mundo era apenas a terra. Mas agora, a casca estava rompendo.


Ao olhar para dentro, ele viu um ponto de luz pura, real e verdadeira. E, no instante em que reconheceu aquela centelha, uma linha invisível e dourada disparou de seu peito em direção ao céu infinito, conectando-se diretamente com a Grande Energia Divina. O caminhante entendeu o segredo da jornada: ele estava ali para aprender, sentir, ouvir e, finalmente, recordar a sua própria essência.


Naquele exato momento, enquanto escrevia a sua história na areia, uma paz avassaladora invadiu o seu ser. Uma sensação de grandeza e gratidão absoluta o preencheu. O seu corpo físico parecia pequeno demais, uma mera casca de barro, diante da imensidão daquela alma que agora se expandia por todo o horizonte. Ele já não era mais apenas um caminhante; ele era a estrada, o céu e o vento. Como uma gota d’água que finalmente toca o oceano, ele deixou de ser apenas gota para se tornar o próprio mar.


Uma organização perfeita tomou conta do seu mundo. O tempo, o momento, o respeito… tudo encontrou o seu devido lugar.
O caminhante levantou-se, olhou para o horizonte iluminado e sorriu. Ele não precisava mais buscar. Vestido com um escudo invisível de luz cristalina, ele deu o primeiro passo na única direção que importava: para a frente, caminhando em direção ao Todo, finalmente…
Inverno de 2026, Neide Aguni Furuguem




