07:39 horas Manhã de 30 de março de 2026


Outono chega de mansinho e traz consigo uma indagação profunda: O que é olhar para o infinito? O que se vê, o que se sente e o que isso significa? Muitas vezes a alma sente a urgência de buscar essa linha do horizonte, sem que a mente racional compreenda o motivo. Durante anos, ao observar imagens de jardins floridos, surgia o questionamento sobre o real significado dos jardins de pedras japoneses. Havia uma distância deliberada entre as rochas, um grande vazio estendido sobre o cascalho rústico. Naquelas frestas largas, parecia faltar algo que a compreensão humana não alcançava. Hoje, muitos anos depois, o mistério se desfez. Diante da antiga mensagem “Deixe fluir”, o olhar voltou-se novamente para o infinito, permitindo que toda a energia interna corresse sem barreiras.


Nesse instante de entrega, o espírito se viu diante daquele mesmo jardim oriental, decifrando as ondas formadas nos cascalhos da mesma maneira que aprendeu a escutar as frases e a sentir as entrelinhas do destino. Tudo possui um sentido maior. As pedras estão ali, mas é no vazio entre elas que a energia encontra espaço para fluir. É essa ausência de matéria que propicia novas perspectivas, discernimento, respostas e a mais pura contemplação. Algo profundo eleva o ser em direção ao universo do conhecimento, da paz e da orientação. O peito experimenta uma explosão de gratidão à vida: um vazio pleno, uma calmaria absoluta onde a matéria deixa de existir e resta apenas a luz.


Poema: As Entrelinhas do Jardim
Lembrei-me dos tempos antigos, dos jardins de pedra, …
Onde o mestre japonês desenhava as ondas na areia.
Eu via o espaço vazio entre cada rocha ancestral,
E achava que faltava algo naquela clareza cheia.
Hoje, o mistério se entrega à voz que me manda fluir,
E compreendo as frestas largas que o sábio ali cultivou.
O vazio não é falta, é o espaço para o rio seguir,
É por onde a corrente cósmica da vida sempre passou.


Olhar para o infinito é ler o que está na entrelinha,
É ver o sentido maior que as pedras vêm ocultar.
O cascalho desenha a rota que o vento sutil adivinha,
Trazendo o discernimento que o peito precisava alcançar.
Não há mais peso ou matéria neste outono que me conduz,
Sinto explodir no meu peito a gratidão pelo que o mundo desfaz.
Entre uma rocha e outra, descobri que eu sou a luz,
Flutuando no grande espaço… feita de silêncio e de paz.






