Há momentos em que questiono, se para adquirir equilíbrio, conhecimento, discernimento, prosperidade, … e maturidade se resulta em ter infligido o certo e o errado, quebrar conceitos e preconceitos, machucar, levantar, chorar, dar risadas, comemorar, e de novo, de novo, de novo, repetir e repetir, é o único caminho das respostas?


O Encontro dos Tempos
Um vasto salão circular de pedra cinzenta e antiga. O teto desabou há séculos, deixando o espaço aberto para o céu. É meio-dia exato; o sol vertical elimina quase todas as sombras do chão.o centro exato da arena, há uma fina camada de água cristalina sobre uma rocha negra e polida, funcionando como um espelho perfeito.


Duas silhuetas idênticas estão frente a frente.
A primeira representa O ONTEM:
veste trajes pesados, escuros, puídos nas bordas e marcados pela poeira da estrada. Seus ombros estão curvados pelo peso invisível de fardos acumulados. Seus punhos estão cerrados, prontos para uma defesa que nunca chega.
A segunda representa O HOJE:
veste roupas leves, de um tom claro e fluido que parece não reter sombras. Sua postura é perfeitamente ereta, os braços relaxados ao longo do corpo. Seu rosto transmite a quietude de um lago profundo.


O ONTEM
(Dá um passo à frente. O impacto do seu pé quebra o reflexo da água com violência. Sua voz é trêmula, carregada pelo cansaço de mil noites em claro, limpando uma lágrima antiga com as costas da mão)
Eu não sei se aguento mais… Vale a pena? Diga-me, ter equilíbrio e maturidade é mesmo o resultado de passar por todo esse inferno? De infligir o certo e o errado, quebrar a cara, machucar quem amamos, ser dilacerado, levantar-se, chorar sozinho no escuro, para depois dar risadas, comemorar… e logo em seguida, de novo, de novo, de novo? Repetir e repetir o mesmo ciclo? Esse labirinto circular é o único jeito de buscar conhecimento? É esse o preço maldito das respostas?!
(O Ontem respira de forma arfante, o peito subindo e descendo com pressa, esperando um contra-ataque ou uma punição).


O HOJE
(Não recua um milímetro. Dá um passo suave à frente; sob seus pés, a água mal se move, redesenhando o espelho instantaneamente. Seu olhar horizontal prende o do Ontem com uma serenidade inabalável. Sua voz sai pausada, nítida, ecoando com uma doçura firme)
Sim. É exatamente esse o caminho. Cada vez que você quebrou, você não foi destruído; você foi esculpido. O choro limpou teus olhos para que pudéssemos enxergar o horizonte; a risada te deu o oxigênio necessário para a próxima subida. Se você não tivesse repetido o ciclo na carne, você seria apenas uma teoria bonita em uma prateleira poeirenta. Você não saberia quem somos. Você não teria substância.
O ONTEM
(Olha para as próprias mãos calejadas, os dedos trêmulos, mudando o peso do corpo, ainda cético e na defensiva)
Mas… e os outros? As pessoas ainda me julgam pelo que fiz enquanto eu errava e tentava aprender nesse ciclo. Elas guardam as sentenças como armas prontas. Elas não esquecem o homem que eu fui lá atrás.


O HOJE
(Dá um leve sorriso, um gesto sutil que desarma a gravidade do ambiente. Ele estende os braços, oferecendo as palmas das mãos abertas, sem defesas)
Deixe que guardem. Quando você desperta, você devolve a todos os seus próprios julgamentos. Eles estão gritando no escuro com o fantasma de quem nós fomos ontem. Esse homem não habita mais aqui. Não mude sua postura por causa do barulho deles, não gaste sua energia no revide. O ódio, a crítica e a malícia deles são o espelho da escuridão interna que eles carregam, não da nossa luz. Ao se recusar a aceitar o fardo, o peso cai de volta nos ombros de quem o atirou.
O ONTEM
(Cessa o tremor das mãos. Ele olha para o Hoje e, pela primeira vez, imita a sua postura. Seus ombros relaxam, o peito se expande. Ele sente o ar do presente entrar nos pulmões, puro e frio. A densidade do ambiente muda)
E o que nos sobra então? Se o passado já não tem poder para nos prender e o futuro não nos pertence… o que nos resta?


O HOJE
(Dá o último passo, eliminando a distância entre os dois. A luz solar do meio-dia cruza os corpos. Suas vozes começam a se fundir em uma nota única e imponente)
Sobra a única lei espiritual que realmente importa neste universo. Ela não se explica, ela se vive. E se resume estritamente em quem hoje eu sou.
O Hoje toca suavemente o peito do Ontem. Num feixe de luz transparente e sem sombras, as duas silhuetas se fundem. As roupas puídas e a poeira desaparecem, restando apenas um único ser, banhado pela clareza do agora
O HOJE
Sozinho no centro da arena vazia, vira-se de costas para o passado e para o tribunal invisível das sombras. À sua frente, a grande parede de pedra da ruína se racha, abrindo espaço para um horizonte vasto e livre.
Nós somos o agora. Livres de fardos, donos do próprio destino. Deixe o tribunal deles para trás, completamente vazio…


…e a vida segue no caminho trilhado pelo que eu sou




